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segunda-feira, 21 de março de 2011

Sandy e Devassa: reflexão sobre estereótipos e papéis sociais feminininos na sociedade atual

Imagem: www.youtube.com/user/BemDevassa
Com certeza não é novidade para ninguém a nova campanha publicitária da cerveja Devassa tendo como garota propaganda a ex “Sandy e Júnior”, agora Sandy somente.

Lembro que quando duas amigas me “apresentaram” essa cerveja num boteco da vida achei uma sacada interessante, afinal, o que mais pensamos quando falamos em devassa senão em uma sexualidade liberta e libertina e em sexo picante, apimentado e deliciosamente quente? Além disso, diferentemente de bebida e direção, bebida e sexo são coisas muito boas de se misturar.

Curiosamente, embora alguns dos significados sensuais encontrados no Dicionário Aurélio para Devassa sejam substantivos tais como desregrado, libidinoso e corrompido, o que a cerveja associa a ser devassa é, por assim dizer, muito mais pueril e inocente, expresso no lado “desencanado, descontraído e desinibido”, sendo, ao que tudo indica, a exploração do contraponto entre esse lado  mais ‘comportado’ e o lado devasso a principal jogada de marketing da atual campanha da cerveja.

Pois bem, há alguns dias ouvi comentários indignados de algumas pessoas próximas, dizendo que o comercial não convencia porque a “Sandy não tem nada de devassa”, que ela “nem bebe cerveja” e que o short que usa na propaganda “vai até aqui” - uma amiga até afirmou, apontando para uma parte da coxa que indica um comprimento meio careta para quem se pretende mesmo devassa.

Até aí era uma conversa séria e tranqüila, entre amigos e amigas, mas depois eu soube que a outrora mocinha - que agora intenta se mostrar uma mulher devassa - acabou virando motivo de chacota na internet e, ainda que muitos fãs a defendam veementemente, não há como não saltar aos olhos comentários como o do jornalista José Simão, colunista da Folha UOL e apresentador do Jornal da Band, que disse em seu programa de rádio na Band FM que “até a Mônica do Maurício de Souza é mais devassa que a Sandy”.

Como estamos em março, mês dedicado internacionalmente à mulher, pensei que talvez fosse interessante discutir essa questão para além do mimimi publicitário e fofoquístico, examinando um pouco os estereótipos a que as mulheres muitas vezes são submetidas e os inúmeros papéis sociais de que teríamos que tentar dar conta na atual sociedade.

Ora, não é preciso ser um crítico voraz da Sandy para observar que a moça não faz bem seu papel de devassa. Não fosse assim, seria ela própria a rebolar e requebrar de biquíni dançando a clássica “Conga  Conga Conga” da cantora Gretchen, música apropriada a movimentos de quadril e de bunda, que combinam muito com a imagem de mulheres soltas como a Gretchen, mas que parecem não se adequar bem a nossa comportada Sandy.

Entretanto, devemos admitir que a idéia da Devassa foi boa, invocando a fantasia de dançarinas com pernas abertas sobre uma cadeira, imagem sensual que, sem dúvida, está presente no imaginário masculino e feminino. Porém, tenho que concordar com minha amiga, porque mesmo havendo certa sensualidade, as roupas usadas pela Sandy nesse comercial são bastante comportadas - talvez adequadas e convenientes aos padrões sandyanos de ser, mas pouco convincentes para o imaginário do que é realmente devasso.

Mas, então, por que investir em algo tão pouco consistente? Será que a polêmica em torno da pouca ou nenhuma devassidão da Sandy venderia mais cerveja do que a sensualíssima Paris Hilton, com seus lábios carnudos, cabelos loiros volumosos, pernas roliças e desnudas e um quadril espontaneamente - e estonteantemente rebolante?

Considero que a grande sacada talvez esteja aí: exatamente em cutucar a fantasia que muitos rapazes, hoje homens, talvez tivessem - e ainda tenham - de imaginar como seria se a Sandy REALMENTE fosse devassa. Sim, porque, verdade seja dita, ela encantou uma geração inteira com sua beleza e autêntico comportamento pueril de “boa moça”. Como essa geração tornou-se adulta não é tão difícil supor que talvez boa parte ainda curta a Sandy, agora como mulher, e imaginar que ela possa não ser tão comportada como parece pode tornar a fantasia muito mais excitante.

Contudo, minha questão é pensar em qual seria o problema de ser comportada, de ser uma “boa moça”, de não ser uma devassa? Seria essa imagem prejudicial à carreira da Sandy em seu momento atual ou isso teria muito mais a ver com a mulher do que com a artista? Ela afirmou em entrevista que “todo artista quer exposição” mas, nesse caso, me intriga realmente o tipo de exposição que ocorre no que tange à representação do feminino.

Nesse sentido, não seria um contra-senso imaginar que parecer bem comportada socialmente é ruim se confrontado ao que representa ser devassa? Aparentemente, para os padrões sociais atuais, uma mulher considerada liberada sexualmente - óbvio que dentro de certos limites da sociedade machista - é muito mais interessante do que aquela tida como sexualmente convencional. No caso da Sandy, soma-se o fato de que talvez ela tenha se cansado de ser vista como a menina inocente e angelical, imagem da cantora adolescente que foi muito fortalecida pelo próprio comportamento dela, vista como “boa moça”.

O ponto sobre o qual acho interessante refletirmos é esse da pressão sofrida socialmente para estarmos dentro de determinados padrões e a dificuldade que, não raro, temos para exercer nossa identidade e sermos quem realmente somos de forma independente porque, muitas vezes, o alinhamento a padrões vigentes podem implicar uma maior aceitação social e até não termos “dores de cabeça” no trabalho, na vida familiar, nos círculos de amizades e mesmo com a auto-imagem.

Nesse sentido, fiquei ponderando sobre o quanto talvez essa moça sinta-se pressionada a mostrar para o seu público que não é mais menina, que se tornou uma mulher e que aquela imagem  pueril que tinha deve ser substituída pela de uma mulher adulta, com vida sexual e tudo o que isso implica. Contudo, em suas próprias declarações rescende o quanto isso está atrelado a um comportamento convencional, dentro de padrões tradicionais, quando diz, por exemplo, que “nem todo mundo consegue ver que cresci, e que sou uma mulher de 28 anos, casada”.

Para mim aí está o grande lance da questão: ser uma mulher casada, com uma vida socialmente comportada, que não se enquadra nos padrões sexuais de devassidão, também pode ser tão interessante e excitante quanto viver o lado devasso no sentido picante do imaginário do termo. O que me parece pouco excitante é tentar convencer o outro de algo que nem nós mesmos estamos convencidos plenamente. Na minha opinião, não há como negar que a Sandy se tornou uma mulher muito bonita e sexy, mas daí até sustentar uma imagem de devassa tem um caminho, a meu ver, desnecessário e pouco convincente.

Penso que nós, mulheres, temos cada vez mais que refletirmos sobre esse montante de estereótipos e papéis que a sociedade machista tenta nos impor a todo custo. Ao mesmo tempo em que somos cobradas para sermos boas esposas, boas donas-de-casa, profissionais competentes e excelentes mães, somos bombardeadas com os valores da ditadura da beleza e da perfeição corporal, que implicam basicamente sermos sexys e sensuais, sem celulite, sem cabelos brancos, magras, com peitos grandes, com bundas duras e empinadas, dentre outros exageros estéticos que circulam por aí.

Não quero dizer com isso, evidentemente, que não seja possível à mulher cuidar-se e sentir-se linda ao mesmo tempo em que agrega qualidades intelectuais e emocionais, além de papéis sociais como os de mãe, esposa, amante, profissional bem-sucedida etc., afinal, se há algo historicamente inerente à mulher é sua habilidade de conseguir dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Contudo, essa condição é muito distinta da de ser pressionada a aceitar imposições para ter um corpo perfeito ou, como foi abordado aqui, indicando que tipo de mulher você deve ser, comportada ou devassa, independente do que VOCÊ QUER ser.

No caso da Sandy como potencial devassa, considero que não aceitar essa imposição seria admitir que o máximo que seu lado devassa tem é o que a própria campanha publicitária afirma, “um lado descolado, descontraído, divertido”, e que não há problema algum nisso, afinal, ela continuará uma mulher bonita, desejável e interessante porque toda mulher pode ser considerada e desejada para além de seu lado devassa.

quarta-feira, 9 de março de 2011

**Mulheres, Sarkozy e o Dia Internacional da Mulher

Imagem: http://blogueirasfeministas.com/
Era a hora do almoço na Pedra Negra, todos já reunidos, quando fomos surpreendidos por um dos hóspedes que pediu licença para fazer uma homenagem às mulheres.

Tive aquele momento "puxa, nem lembrei", mas ponderei que estava há dias alienada do tempo-espaço do cotidiano da informação, do urbano e da universidade, mergulhada no bem-estar que emana da calmaria da Fazenda, de seu entorno verde e montanhoso e do convívio harmônico e interessante com nossos anfitriões.

Porém, considerando-se a importância de tal data e minha militância no universo do feminino e do feminismo, imediatamente pensei em me retratar de tal lacuna e escrever alguma reflexão sobre isso no blog. Tarefa de responsa, diria a gíria sobre o assunto, e lá fui eu dar uma 'pesquisadinha' no Google para ver as últimas sobre a data.

E qual não foi minha surpresa ao dar de cara com a declaração do excelentíssimo presidente da França, Nicolas Sarkozy, em uma celebração, defendendo que o Dia Internacional da Mulher é "simpático, é necessário, mas talvez nos devêssemos concentrar no essencial". O essencial, segundo o presidente zeloso das questões econômico-sociais, “é encontrar trabalho para homens e mulheres, uma possibilidade de promoção social para os dois".

Parece-me que o presidente precisa se informar melhor, porque se o problema fosse apenas garantir de forma equitativa oferta de empregos para homens e mulheres não haveria tanta discrepância entre salários, por assim dizer, femininos e masculinos, no mundo do trabalho. No Brasil, por exemplo, pesquisa do Dieese aponta que mesmo as mulheres que possuem maior nível de escolaridade que os homens ocupam funções aquém de sua formação, "além de ter remuneração menor se comparada ao sexo oposto". Na França de Sarkozy os dados indicam que as mulheres ganham até 27% menos que os homens exercendo a mesma função.

Outro equívoco de Sarkozy é falar como se a defesa da existência do Dia Internacional da Mulher fosse incompatível com o desejo de igualdade de direitos para homens e mulheres, como se estivéssemos já em pé de igualdade de direitos com os homens e nossas reivindicações fossem para ter mais direitos que eles.

Talvez por isso tenha questionado se mulheres desejosas de autonomia e de trabalho não terão iguais aspirações para o seu filho como para a sua filha?” Mas alguém precisa explicar ao excelentíssimo presidente que a igualdade de direitos para as mulheres ainda está longe de ser conquistada em sua plenitude, portanto, sim, temos as mesmas aspirações para nossos filhos e filhas, com a diferença que para os nossos filhos o terreno já está bem propício, enquanto que para as nossas filhas muitos Dias Internacionais das Mulheres ainda terão lugar antes de conquistarmos reais e justas possibilidades de vivência nos espaços domésticos e sociais, de trabalho etc.

Reconhecemos que “as coisas mudaram consideravelmente”, como observou muito bem o senhor presidente, mas apenas quem não convive em espaço  algum com mulheres nem acompanha absolutamente nada sobre a vida da mulher no mundo contemporâneo pode pensar que tais mudanças são satisfatórias e que nada mais é necessário mudar para melhorar a vida das mulheres na sociedade atual.

Mas o que verdadeiramente me chocou no nível de ignorância do excelentíssimo presidente foi seu questionamento sobre se o Dia Internacional da Mulher “quererá dizer que os restantes dias são do homem?”

Nem vou gastar minha verve contestando uma bobagem tamanha como essa, mas lembrei de uma situação uma vez num supermercado, quando ouvi duas mulheres conversando sobre esse assunto e uma delas comentou que achava um absurdo haver um Dia Internacional da Mulher e não haver um Dia de comemoração para o homem.

Fico pensando no grau de opressão e alienação que levam uma mulher a não se enxergar como sujeito social a ponto de pensar como a minha colega descrita aí acima e considero que, se levarmos em conta episódios particulares como esse e públicos como o das declarações de Sarkozy, ainda teremos mesmo que comemorar muitos mais Dias e Dias Internacionais das Mulheres com muita luta, consciência e conscientização.

__________

 
Abaixo faço minha homenagem, com algumas demonstrações da importância do Dia Internacional das Mulheres e da participação e mobilização das mulheres em questões políticas e sociais:


Mulheres negras em manifestação. 8 de março. 1988.
 Imagem: www.memoriaemovimentossociais.com.br


Rio de Janeiro. 8 de março. 1989.
Imagem: www.memoriaemovimentossociais.com.br


                                                                   

Feministas anticapitalistas por um mundo livre. 8 de março. 2008.
Imagem: www.ciranda.net




Marcha Mundial das Mulheres na luta feminista e anticapitalista. 8 de março. 2007.
Imagem: http://www.sof.org.br/



**Uma homenagem a todas as minhas amigas militantes da vida em suas diferentes dimensões.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Xixi em pé, afirmação da masculinidade e repressão feminina: 2a parte

Imagem: sindepolpb.com.br
Na primeira parte deste texto estávamos conversando sobre como meninos são incentivados a fazerem xixi na rua - ou pelo menos isso é liberado a eles - enquanto às meninas é dada uma outra forma de educação, repressora da sexualidade feminina.

Conversamos também sobre como essa conduta permanece depois de crescidos esses meninos, e mesmo sendo considerado um crime previsto em lei, com notícias recentes de pessoas presas por fazerem xixi na rua, a prática prossegue bastante comum e, segundo o próprio juiz que julgou um caso do tipo, a conduta é "socialmente correta".

Outra dimensão dessa conduta, um pouco mais íntima mas nem por isso menos sagrada para os rapazes, é a relação entre poder mijar em pé e a afirmação da masculinidade.

Não havia me questionado ainda sobre isso até que fui morar na residência estudantil na universidade. Os apartamentos eram mistos - ainda são na verdade - e comecei a achar absurdo que os caras sujassem o sanitário sendo que nós, meninas, teríamos de nos sentar ali, o que, a meu ver, além de nojento e desrespeitoso para conosco ainda poderia provocar doenças tais como infecção urinária, afinal, a vagina é um sexo aberto, muito mais propício à entrada de micróbios e outros seres nocivos à saúde do que o pênis.

Imagem de www.fotolog.com.br
Pensando nisso e preocupada com minha filhotinha que acabara de sair do piniquinho e começaria a usar o sanitário falei com o estudante que iria morar comigo no apartamento se ele poderia fazer xixi sentado no nosso banheiro. Ele, por sua vez, ficou indignado, dizendo que isso era um absurdo e, para argumentar em cima da ilegitimidade do meu pedido, disse que nunca sujava o vaso quando fazia xixi, que tinha uma boa mira e até contou uma historinha de como a avó dele tinha ensinado um método perfeito para enxugar o pipi depois do xixi de forma a não vazar nem uma gotinha.

Eu sabia que não poderia obrigar ninguém a acatar minha solicitação, mas senti que tinha feito minha parte, e depois, era questão da consciência de cada um. Aliás, pensava, se o cara quisesse poderia simplesmente dizer que tudo bem, que faria xixi sentado, afinal, a porta estaria fechada, ninguém estaria vendo e ele poderia simplesmente fazer seu mijo inocente tranqüilamente de pé.

Mas nenhum homem que conheci e que não concordava com minha tese mentia. Os que acataram aceitaram numa boa e os que não concordavam simplesmente diziam que eu estava louca ou inventavam uma historinha para justificar sua atitude e ponto. O interessante é que essa dignidade demonstrada, a meu ver, não estava relacionada ao fato de não mentirem e sim na suposta dignidade da manutenção de seu status de homem, em sua masculinidade, no 'direito sagrado' de mijar em pé.

Aliás, há certos indicativos que colocam o fazer xixi em pé como algo meio superior da referência à masculinidade, tanto que há expressões tais como “vai começar a fazer xixi sentado?” ou “só falta fazer xixi sentado” para falar de alguém que é gay ou com comportamentos considerados pouco adequados ao padrão socialmente aceito como masculino.

Imagem: http://www.wordpress.tokyotimes.org
Contudo, para além dos embates entre mulheres e homens ao tratar dessa questão há que se considerar a pauta da higiene. Nesse sentido, encontrei desde manuais de instruções que ensinam aos rapazes etapas para que seu xixi não se desvie do sanitário até o Angel Lap Pillow, espécie de sapatinho criado pelos japoneses para que o sujeito fique ajoelhado próximo ao sanitário, também evitando que o xixi suje o vaso e o chão, tudo para tentar conciliar uma higiene básica à suposta necessidade masculina de ficar em pé para urinar ou a dignidade de, pelo menos, não ter de fazer xixi sentado.

De qualquer forma, tenho observado que rapazes e homens que não se sentem tão pressionados por essa necessidade de afirmação heterossexual ou da famigerada masculinidade aceitam como algo tranqüilo a proposta de fazer xixi sentado no banheiro de sua casa. Em geral são homens mais jovens e mais abertos à idéia de que sua masculinidade não está atrelada a padrões rígidos do que é ser homem e, portanto, em sua intimidade não precisam se preocupar como se estivessem sendo observados o tempo todo para provar essa suposta macheza.

Outra coisa importante é, enquanto mães, nos refletirmos sobre como oferecer uma educação mais libertária para os meninos, desprendendo-os de símbolos como esses e outros que atrelam a masculinidade a padrões tão estreitos conceitualmente bem como a essa rigidez do não sentir, do não chorar, da não sensibilidade, da não delicadeza. Da mesma forma, cabe repensar a educação para as meninas, refletindo sobre esse formato ainda tão repressor se comparamos pequenas atitudes que diferenciam o tratamento dado a meninos e meninas numa mesma situação, como a exemplificada na primeira parte desse texto, em que meninos são livres para fazerem xixi em lugares públicos.

Quando comecei esse texto o fiz para ver se conseguia amenizar ou pelo menos elaborar um pouco minha indignação justamente sobre essa situação de ver caras mijando onde bem entendem.

Pois bem, dias desses estava indo pegar o Chiquinho, meu palinho popular 1.0, estacionado em frente a uma agência bancária. Logo ao atravessar a rua notei dois sujeitos indo em direção ao lugar onde ele estava e da maneira como foram mexendo nas bermudas imaginei que iam fazer xixi ali. Um deles, inclusive, foi bem na direção do Chiquinho, o que me fez perceber com desgosto que eu ia chegar para abrir o carro e o cara estaria ali, ao meu lado com o pinto de fora atirando urina pra todo lado.

Cheguei perto do carro e, não bastasse o cara estar ali nessa atitude indigna, observei que por todo o pneu do Chiquinho escorria mijo. Fiquei tão incomodada que sem avaliar aquele receio que normalmente temos nos grandes centros urbanos - e por isso muitas vezes não reclamamos, receosos de pessoas encrenqueiras ou loucas ou, pior, ambos - falei num tom de repreensão meio puxão de orelha meio 'não estou acreditando': “porra meu, mas no pneu do carro?” E ele, que provavelmente não pensou que fiquei cogitando se haveria alguma relação entre homens e cachorros, xixis em pneus e demarcação de território, respondeu meio envergonhado “desculpa fia”.


Sites e artigos interessantes que encontrei sobre o assunto:


domingo, 30 de janeiro de 2011

Xixi na rua, masculinidade e repressão feminina: 1a parte

Imagem extraída de http://artur-moritz.blogspot.com/
É possível que o título desse texto tenha levado vocês a pensarem porque decidi falar de algo aparentemente tão pouco garboso e talvez até sem nexo em lugar do post que eu  havia prometido sobre minha rápida incursão em Buenos Aires. Mas se você acompanha o blog está acostumado com esses descaminhos curiosos e, além disso, minhas anotações e reflexões na Argentina virão, assim como as histórias que estou devendo ainda sobre a Fazenda Pedra Negra.

A primeira provocação aqui diz respeito ao termo xixi para designar a conhecida urina. Quando pedi opinião ao meu querido, ele que é autenticamente mente aberta questionou o uso do termo, que indica certa infantilidade ou, pelo menos, pouca masculinidade. Mas o fato é que acho urina uma palavra feiona, que fica melhor em contextos laboriatológicos e hospitalares, então vou insistir no uso de xixi mesmo.

De qualquer forma, o que quero tratar no texto são algumas relações que vejo entre o ato de fazer xixi (ou mijar, como preferem os socialmente másculos de plantão), o universo masculino e a repressão feminina no contexto de uma educação essencialmente machista.

Vejam, não me considero uma pessoa careta nem com excessivos melindres a atitudes que, em geral, incomodam mulheres mais sensíveis. Pelo contrário, minha acidez me ajuda a compreender e aceitar, sem problemas, brincadeiras escatológicas e mesmo piadas porquinhas até na hora de comer. Contudo, não tolero rapazes e homens feitos mijando em paredes, árvores, cantos, escadarias e portas de lojas, ou seja, em locais públicos, o que considero uma enorme falta de respeito e, mesmo vendo isso muito mais do que acharia aceitável para uma sociedade que se pensa civilizada, não consigo me acostumar.

Lembro que desde bem moça tal façanha de mal gosto me incomodava bastante e eu dizia as minhas amigas adolescentes da época que, ao invés de passarmos vexadas quando nos deparávamos com uma dessas cenas, deveríamos, isso sim,  deixar os caras vexados, afinal, eles é que estavam sendo inoportunos. Minha proposta era que nos aproximássemos em várias meninas e ficássemos encarando o sujeito e seu pinto com olhar firme. Pensava que até poderíamos fazer um comentário do tipo “e nem é tudo isso”, mas depois, com a maturidade, percebi que essa última parte do meu plano era machista e a abortei. De toda forma, não consegui nunca adeptas para me acompanhar nessa empreitada e o máximo que consigo sozinha é fazer insignificantes comentários repreensivos em altura suficiente para que os malas mal-educados ouçam.

Uma questão que me provoca nessa conduta de mijar publicamente é sua relação com a representação de masculinidade na nossa sociedade e os valores transmitidos pela educação destinada a formar homens e mulheres.

Observe-se que desde pequeninos os garotos fazem xixi em qualquer lugar com a anuência de suas mães. (Digo mães porque embora eu defenda que os pais deveriam ser tão responsáveis e tão cobrados pela educação dos filhos quanto as mães, esse meu mundo ideal ainda está por vir). Diferente deles, as meninas, mesmo pequenas, tem de esperar até chegar em casa ou a um local apropriado para usar o banheiro.

Nesse ponto, os mais simplistas poderiam dizer que isso ocorre porque, evidentemente, é muito mais fácil para os meninos tirarem o pintinho de dentro da roupa e fazerem xixi mirando em algo do que para as meninas se abaixarem e fazerem xixi escorrendo pelas pernas. Mas discordo que seja somente uma questão de viabilidade aí implícita. Pelo contrário, penso que essa suposta viabilidade é mais um dos mecanismos utilizados para reprimir as meninas em suas vontades, afinal, crianças são crianças e se a menina pode esperar até chegar em casa, com o menino não precisaria ser diferente.

Giovanna Antonelli com seu filho em frente a restaurante no Rio.
Ou seja, se não é o "estar muito apertado" ou a possibilidade de fazer xixi na roupa o motivo principal, se a vontade é a mesma para meninos e meninas, o que mais justificaria as meninas terem de se segurar enquanto meninos podem fazer xixi na rua sem precisar reprimir sua vontade senão uma educação machista e repressora de mulheres?

Outro indicativo dessa repressão às meninas contraposta a uma educação que deixa os meninos muito à vontade é o fato de que aos meninos é permitido mostrar o pipi: ele pode tirá-lo de dentro da roupa e fazer xixi a céu aberto e dificilmente sofrerá uma reprimenda por isso ou verá alguém indignado com sua atitude como algo escandaloso. Por outro lado, se uma menina abaixasse a roupa e mostrasse sua vagininha da forma ostensiva como os garotos podem mostrar seus pipis publicamente, duvido muito que ela não seria reprimida com palavras de ordem ou pelo menos vestida imediatamente para corrigir a atitude fora de padrão.

Assim, desde cedo os meninos são educados em meio a essa simbologia de liberdade  em relação à sua sexualidade, enquanto as meninas tem o não como principal indicativo:  um não que proíbe tanto aliviar sua vontade quanto mostrar seu sexo. E vejam, não defendo que as meninas tenham esse direito, não se trata disso mas de refletir sobre elementos que, a meu ver, representam parte dessa educação repressora de mulheres.

O fato é que muitos caras já adultos parecem não ver inadequação nessa atitude e continuam a mijar por aí a torto e a direito. Talvez por terem sido educados dessa forma é que muitos sujeitos se acham no direito de  sair mostrando seus pintos em plena luz do dia, sentindo-se autorizados a mijar em qualquer lugar. Encontrei até uma defesa de que "mijar no muro é um direito sagrado do homem". Tudo bem que o autor defende que esse muro estaria numa "rua deserta" onde não há "ninguém para olhar", mas não é exatamente o que acontece na vida real.

Aparentemente, outro direito considerado sagrado é o de mijar em pé, estreitamente relacionado - para muitos homens - à afirmação da famigerada masculinidade. Tratarei disso na segunda parte desse texto.

domingo, 10 de outubro de 2010

Gigante, de Adrián Biniez

Para comemorar meu décimo texto no blog - já falei aqui antes que sou coruja - resolvi escrever algumas impressões sobre o filme uruguaio Gigante, primeiro longa do diretor argentino Adrián Biniez.

O filme é de 2009, mas assisti semana passada na Mostra Cinusp - Para Gostar de Cinema 2006 a 2009 (vale dizer, ainda em cartaz) e achei o filme excelente. Premiado pela crítica no Festival de Berlim e em Gramado com prêmios de melhor roteiro, melhor diretor e melhor ator, além de levar o troféu especial para inovação cinematográfica, é possível encontrar inúmeros comentários e artigos elogiosos ao filme e ao personagem de Horacio Camandule, o segurança Jara.

Mais homogêneos que as indicações sobre o gênero do filme, que vão da comédia à comédia romântica e ao drama - os comentários sobre o personagem Jara giram em torno de seu romantismo, contrapondo o fato de ele ser um “sujeito grandalhão” ao de ter “um coração sensível e apaixonado”.

Encontrei até um artigo que dizia, a propósito dessa contraposição, que os brutos também amam, embora à maneira deles.

Mas que maneira seria essa? Mais que um romântico, Jara é um sujeito íntegro, de bom caráter, sensível e bacana. E mesmo com essas características de um típico “gente boa” não deixa de ser bastante agressivo em algumas situações que exigiram - ou nas quais ele quis demonstrar - sua força e/ ou sua raiva.

Talvez Biniez nem tenha pensado nessa questão ao criar o roteiro, mas acho que foi o filme mais não machista que eu já assisti. Ainda estou tentando lembrar de outro e não consigo. Para mim essa é a grande sacada do diretor em relação à criação do personagem, com fortes características convencionalmente associadas ao feminino, tais como a sensibilidade, a doçura e o romantismo, e absolutamente convincente em sua masculinidade.

A associação desses traços em homens à afeminação não é incomum e, muitas vezes, para reforçar o rótulo de afeminado são acrescentadas palavras de mau gosto bastante machistas tais como maricas, mariquinha, mulherzinha e coisas do tipo. No caso de Gigante, acho praticamente impossível que alguém associe Jara a algum desses xingamentos, não apenas porque ele é agressivo, aliás, é um equívoco bastante comum achar que homens com traços ditos afeminados não são agressivos.

Considero que essa é outra sacada incrível do não machismo de Gigante: não me parece que a constituição do masculino de Jara esteja essencialmente marcada pela agressividade ou pela força, há momentos em que isso aparece mas não considero o ponto central que faz sua masculinidade inquestionável. Para mim isso é demonstrado na coerência dessa constituição masculina, por sinal genial do diretor, em que através de inúmeras e sutis situações ele vai nos apresentando a personagem em suas contradições.

Assim, ao mesmo tempo em que Jara está interessado em saber o desfecho do encontro de Júlia, perde o casal de vista num momento tenso do jogo do futebol, que prende sua atenção. Ao mesmo tempo em que expulsa 2 sujeitos briguentos da danceteria onde trabalha demonstra preocupação com o cara que estava sendo achincalhado pelo outro. Ao mesmo tempo em que obriga o sobrinho a seguir Júlia junto com ele depois brinca com o garoto de luta de espadas.

Essas são algumas das situações que, no meu entendimento, contribuíram para a genial constituição não machista do filme e de Jara, um sujeito que teria tudo para ser um tipo de machão, não apenas por seu tamanho e força, mas por estar vinculado a um universo de pouca polidez e delicadeza. Ao contrário disso, o diretor Adrián Biniez conseguiu transformar um cara simples, com pouco estudo e poucos recursos num Gigante.
 
Há muitos outros elementos que fazem com que o Gigante seja imperdível para quem gosta de filmes excelentes, desses que nos deixam arrebatados com tamanho encanto e emoção, mas reservo-me aqui o direito de deixar que vocês os descubram por si próprios.
 

Gigante, direção Adrián Biniez, Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha, 2009, 90’.




Sites consultados:

http://cinema.uol.com.br/
http://www.estadao.com.br/
http://www.tripcult.com.br/

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Aviso aos navegantes

Como diria um historiador nato, contextualizar é preciso.

Qualquer coisa que você perguntar a um sujeito com essa formação correndo nas veias, dificilmente terá como resposta algo objetivo, sem contextualização prévia. Eu diria que é quase impossível para alguém assim explicar algo sem situar muito bem os fatos, afinal, dessa forma, seu interlocutor compreenderá melhor o assunto tratado.

Você pergunta como é possível que no Congresso brasileiro haja tanta corrupção, esperando uma discussão que gire em torno da falta de participação política da maior parte dos brasileiros, de questões envolvendo a educação básica ou ainda alguma responsabilidade envolvendo a mídia, mas não, o cara vai muito mais longe e, assim, começa a te explicar que essa situação tem raízes na formação do Brasil desde a época da colonização pelos portugueses, disserta sobre o momento político em que o Brasil deixou de ser colônia e passou a ser "Império" e por aí vai, até chegar aos tempos atuais.

Calma, existe um mito que talvez seja comprovado um dia: nem todos os formados em História são prolixos ou viciados em contexto.

Quanto a mim, aviso aos navegantes deste blog sobre algumas coisas que sempre encontrarão por aqui, e um pouco dos porquês disso.

E veja, não se trata de justificativas, o objetivo é contextualizar você.

1. Filhos.
Sim, tenho dois, sou ultra-coruja, mas para além das corujices sou educadora e estudiosa da educação e mãe bem-sucedida. Então falarei muito por aqui de nossos filhotes e assuntos afins, como educação, dilemas pais e filhos, a dureza que é educar filhos bem-educados nesse mundo complexo e complicado e tudo o mais.

2. Classe média.
Sim, concordo que não existe apenas uma classe média, que existem infinitas nuances quando pensamos as classes médias e que, nesse e em outros sentidos, o termo burguês é extremamente limitado quando utilizado nos termos que normalmente são usados por pessoas consideradas antiquadas politicamente, mas como uma quadrada que sou, adoro utilizar esse termo, porque acho que ele fala por si, por assim dizer.

3. Questão racial.
Se você gastar seu tempo por aqui, é possível que pense em alguns momentos "por que essa branca se preocupa tanto com isso", mas sim, a questão racial é algo que discuto e reflito e denuncio o tempo inteiro, talvez porque eu não acredite, em certo sentido, que haja realmente brancos no Brasil, talvez porque me incomode a ideia de que alguém acredite (ainda) que há democracia racial no Brasil, talvez porque eu ache que alguém que pense algo similar ao que citei no início do parágrafo realmente precisa ser incomodado com assuntos sobre a questão racial.

4. Gênero.
Sim, para mim a questão de gênero está presente em tudo e acho que é muito importante perceber as sutilezas nas quais, o tempo todo, aparecem questões que mostram como o machismo e a violência estão incrustados nas relações.

5. OutrAs.
Além disso, como já me falaram muitas pessoas queridas, eu sempre tenho algo a pitacar sobre tudo. Então farei isso aqui, palpitarei sobre tudo, inclusive o que nem é de minha alçada, como sobre filmes, montagens, a internet, enfim, tudo o que gosto de ficar analisando, que me chama a atenção e que em minha opinião pode contribuir, de alguma forma, para o tempo de quem, como eu já disse, gastar um pouco de seu tempo por aqui.