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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Xixi em pé, afirmação da masculinidade e repressão feminina: 2a parte

Imagem: sindepolpb.com.br
Na primeira parte deste texto estávamos conversando sobre como meninos são incentivados a fazerem xixi na rua - ou pelo menos isso é liberado a eles - enquanto às meninas é dada uma outra forma de educação, repressora da sexualidade feminina.

Conversamos também sobre como essa conduta permanece depois de crescidos esses meninos, e mesmo sendo considerado um crime previsto em lei, com notícias recentes de pessoas presas por fazerem xixi na rua, a prática prossegue bastante comum e, segundo o próprio juiz que julgou um caso do tipo, a conduta é "socialmente correta".

Outra dimensão dessa conduta, um pouco mais íntima mas nem por isso menos sagrada para os rapazes, é a relação entre poder mijar em pé e a afirmação da masculinidade.

Não havia me questionado ainda sobre isso até que fui morar na residência estudantil na universidade. Os apartamentos eram mistos - ainda são na verdade - e comecei a achar absurdo que os caras sujassem o sanitário sendo que nós, meninas, teríamos de nos sentar ali, o que, a meu ver, além de nojento e desrespeitoso para conosco ainda poderia provocar doenças tais como infecção urinária, afinal, a vagina é um sexo aberto, muito mais propício à entrada de micróbios e outros seres nocivos à saúde do que o pênis.

Imagem de www.fotolog.com.br
Pensando nisso e preocupada com minha filhotinha que acabara de sair do piniquinho e começaria a usar o sanitário falei com o estudante que iria morar comigo no apartamento se ele poderia fazer xixi sentado no nosso banheiro. Ele, por sua vez, ficou indignado, dizendo que isso era um absurdo e, para argumentar em cima da ilegitimidade do meu pedido, disse que nunca sujava o vaso quando fazia xixi, que tinha uma boa mira e até contou uma historinha de como a avó dele tinha ensinado um método perfeito para enxugar o pipi depois do xixi de forma a não vazar nem uma gotinha.

Eu sabia que não poderia obrigar ninguém a acatar minha solicitação, mas senti que tinha feito minha parte, e depois, era questão da consciência de cada um. Aliás, pensava, se o cara quisesse poderia simplesmente dizer que tudo bem, que faria xixi sentado, afinal, a porta estaria fechada, ninguém estaria vendo e ele poderia simplesmente fazer seu mijo inocente tranqüilamente de pé.

Mas nenhum homem que conheci e que não concordava com minha tese mentia. Os que acataram aceitaram numa boa e os que não concordavam simplesmente diziam que eu estava louca ou inventavam uma historinha para justificar sua atitude e ponto. O interessante é que essa dignidade demonstrada, a meu ver, não estava relacionada ao fato de não mentirem e sim na suposta dignidade da manutenção de seu status de homem, em sua masculinidade, no 'direito sagrado' de mijar em pé.

Aliás, há certos indicativos que colocam o fazer xixi em pé como algo meio superior da referência à masculinidade, tanto que há expressões tais como “vai começar a fazer xixi sentado?” ou “só falta fazer xixi sentado” para falar de alguém que é gay ou com comportamentos considerados pouco adequados ao padrão socialmente aceito como masculino.

Imagem: http://www.wordpress.tokyotimes.org
Contudo, para além dos embates entre mulheres e homens ao tratar dessa questão há que se considerar a pauta da higiene. Nesse sentido, encontrei desde manuais de instruções que ensinam aos rapazes etapas para que seu xixi não se desvie do sanitário até o Angel Lap Pillow, espécie de sapatinho criado pelos japoneses para que o sujeito fique ajoelhado próximo ao sanitário, também evitando que o xixi suje o vaso e o chão, tudo para tentar conciliar uma higiene básica à suposta necessidade masculina de ficar em pé para urinar ou a dignidade de, pelo menos, não ter de fazer xixi sentado.

De qualquer forma, tenho observado que rapazes e homens que não se sentem tão pressionados por essa necessidade de afirmação heterossexual ou da famigerada masculinidade aceitam como algo tranqüilo a proposta de fazer xixi sentado no banheiro de sua casa. Em geral são homens mais jovens e mais abertos à idéia de que sua masculinidade não está atrelada a padrões rígidos do que é ser homem e, portanto, em sua intimidade não precisam se preocupar como se estivessem sendo observados o tempo todo para provar essa suposta macheza.

Outra coisa importante é, enquanto mães, nos refletirmos sobre como oferecer uma educação mais libertária para os meninos, desprendendo-os de símbolos como esses e outros que atrelam a masculinidade a padrões tão estreitos conceitualmente bem como a essa rigidez do não sentir, do não chorar, da não sensibilidade, da não delicadeza. Da mesma forma, cabe repensar a educação para as meninas, refletindo sobre esse formato ainda tão repressor se comparamos pequenas atitudes que diferenciam o tratamento dado a meninos e meninas numa mesma situação, como a exemplificada na primeira parte desse texto, em que meninos são livres para fazerem xixi em lugares públicos.

Quando comecei esse texto o fiz para ver se conseguia amenizar ou pelo menos elaborar um pouco minha indignação justamente sobre essa situação de ver caras mijando onde bem entendem.

Pois bem, dias desses estava indo pegar o Chiquinho, meu palinho popular 1.0, estacionado em frente a uma agência bancária. Logo ao atravessar a rua notei dois sujeitos indo em direção ao lugar onde ele estava e da maneira como foram mexendo nas bermudas imaginei que iam fazer xixi ali. Um deles, inclusive, foi bem na direção do Chiquinho, o que me fez perceber com desgosto que eu ia chegar para abrir o carro e o cara estaria ali, ao meu lado com o pinto de fora atirando urina pra todo lado.

Cheguei perto do carro e, não bastasse o cara estar ali nessa atitude indigna, observei que por todo o pneu do Chiquinho escorria mijo. Fiquei tão incomodada que sem avaliar aquele receio que normalmente temos nos grandes centros urbanos - e por isso muitas vezes não reclamamos, receosos de pessoas encrenqueiras ou loucas ou, pior, ambos - falei num tom de repreensão meio puxão de orelha meio 'não estou acreditando': “porra meu, mas no pneu do carro?” E ele, que provavelmente não pensou que fiquei cogitando se haveria alguma relação entre homens e cachorros, xixis em pneus e demarcação de território, respondeu meio envergonhado “desculpa fia”.


Sites e artigos interessantes que encontrei sobre o assunto:


domingo, 30 de janeiro de 2011

Xixi na rua, masculinidade e repressão feminina: 1a parte

Imagem extraída de http://artur-moritz.blogspot.com/
É possível que o título desse texto tenha levado vocês a pensarem porque decidi falar de algo aparentemente tão pouco garboso e talvez até sem nexo em lugar do post que eu  havia prometido sobre minha rápida incursão em Buenos Aires. Mas se você acompanha o blog está acostumado com esses descaminhos curiosos e, além disso, minhas anotações e reflexões na Argentina virão, assim como as histórias que estou devendo ainda sobre a Fazenda Pedra Negra.

A primeira provocação aqui diz respeito ao termo xixi para designar a conhecida urina. Quando pedi opinião ao meu querido, ele que é autenticamente mente aberta questionou o uso do termo, que indica certa infantilidade ou, pelo menos, pouca masculinidade. Mas o fato é que acho urina uma palavra feiona, que fica melhor em contextos laboriatológicos e hospitalares, então vou insistir no uso de xixi mesmo.

De qualquer forma, o que quero tratar no texto são algumas relações que vejo entre o ato de fazer xixi (ou mijar, como preferem os socialmente másculos de plantão), o universo masculino e a repressão feminina no contexto de uma educação essencialmente machista.

Vejam, não me considero uma pessoa careta nem com excessivos melindres a atitudes que, em geral, incomodam mulheres mais sensíveis. Pelo contrário, minha acidez me ajuda a compreender e aceitar, sem problemas, brincadeiras escatológicas e mesmo piadas porquinhas até na hora de comer. Contudo, não tolero rapazes e homens feitos mijando em paredes, árvores, cantos, escadarias e portas de lojas, ou seja, em locais públicos, o que considero uma enorme falta de respeito e, mesmo vendo isso muito mais do que acharia aceitável para uma sociedade que se pensa civilizada, não consigo me acostumar.

Lembro que desde bem moça tal façanha de mal gosto me incomodava bastante e eu dizia as minhas amigas adolescentes da época que, ao invés de passarmos vexadas quando nos deparávamos com uma dessas cenas, deveríamos, isso sim,  deixar os caras vexados, afinal, eles é que estavam sendo inoportunos. Minha proposta era que nos aproximássemos em várias meninas e ficássemos encarando o sujeito e seu pinto com olhar firme. Pensava que até poderíamos fazer um comentário do tipo “e nem é tudo isso”, mas depois, com a maturidade, percebi que essa última parte do meu plano era machista e a abortei. De toda forma, não consegui nunca adeptas para me acompanhar nessa empreitada e o máximo que consigo sozinha é fazer insignificantes comentários repreensivos em altura suficiente para que os malas mal-educados ouçam.

Uma questão que me provoca nessa conduta de mijar publicamente é sua relação com a representação de masculinidade na nossa sociedade e os valores transmitidos pela educação destinada a formar homens e mulheres.

Observe-se que desde pequeninos os garotos fazem xixi em qualquer lugar com a anuência de suas mães. (Digo mães porque embora eu defenda que os pais deveriam ser tão responsáveis e tão cobrados pela educação dos filhos quanto as mães, esse meu mundo ideal ainda está por vir). Diferente deles, as meninas, mesmo pequenas, tem de esperar até chegar em casa ou a um local apropriado para usar o banheiro.

Nesse ponto, os mais simplistas poderiam dizer que isso ocorre porque, evidentemente, é muito mais fácil para os meninos tirarem o pintinho de dentro da roupa e fazerem xixi mirando em algo do que para as meninas se abaixarem e fazerem xixi escorrendo pelas pernas. Mas discordo que seja somente uma questão de viabilidade aí implícita. Pelo contrário, penso que essa suposta viabilidade é mais um dos mecanismos utilizados para reprimir as meninas em suas vontades, afinal, crianças são crianças e se a menina pode esperar até chegar em casa, com o menino não precisaria ser diferente.

Giovanna Antonelli com seu filho em frente a restaurante no Rio.
Ou seja, se não é o "estar muito apertado" ou a possibilidade de fazer xixi na roupa o motivo principal, se a vontade é a mesma para meninos e meninas, o que mais justificaria as meninas terem de se segurar enquanto meninos podem fazer xixi na rua sem precisar reprimir sua vontade senão uma educação machista e repressora de mulheres?

Outro indicativo dessa repressão às meninas contraposta a uma educação que deixa os meninos muito à vontade é o fato de que aos meninos é permitido mostrar o pipi: ele pode tirá-lo de dentro da roupa e fazer xixi a céu aberto e dificilmente sofrerá uma reprimenda por isso ou verá alguém indignado com sua atitude como algo escandaloso. Por outro lado, se uma menina abaixasse a roupa e mostrasse sua vagininha da forma ostensiva como os garotos podem mostrar seus pipis publicamente, duvido muito que ela não seria reprimida com palavras de ordem ou pelo menos vestida imediatamente para corrigir a atitude fora de padrão.

Assim, desde cedo os meninos são educados em meio a essa simbologia de liberdade  em relação à sua sexualidade, enquanto as meninas tem o não como principal indicativo:  um não que proíbe tanto aliviar sua vontade quanto mostrar seu sexo. E vejam, não defendo que as meninas tenham esse direito, não se trata disso mas de refletir sobre elementos que, a meu ver, representam parte dessa educação repressora de mulheres.

O fato é que muitos caras já adultos parecem não ver inadequação nessa atitude e continuam a mijar por aí a torto e a direito. Talvez por terem sido educados dessa forma é que muitos sujeitos se acham no direito de  sair mostrando seus pintos em plena luz do dia, sentindo-se autorizados a mijar em qualquer lugar. Encontrei até uma defesa de que "mijar no muro é um direito sagrado do homem". Tudo bem que o autor defende que esse muro estaria numa "rua deserta" onde não há "ninguém para olhar", mas não é exatamente o que acontece na vida real.

Aparentemente, outro direito considerado sagrado é o de mijar em pé, estreitamente relacionado - para muitos homens - à afirmação da famigerada masculinidade. Tratarei disso na segunda parte desse texto.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Oroborus, Fênix, Recomeços e Feliz 2011

Oroborus. Imagem extraída de lunarosa.multiply.com
Bom, quem me conhece sabe que não sou muito dada a romantismos e pieguices, mas acho que nem minha acidez costumeira sai ilesa da influência desse clima de final de ano, bastante propício ao sentimento de reflexão e da sensação da possibilidade de recomeço.

Estava ainda querendo escrever algo para finalizar o conjunto de textos deste ano no blog pois, também quem me conhece, sabe o quanto de carinho tenho por este espaço de expressão e de partilha do que penso.

Conversando com um amigo mui querido sobre isso, ele, que é conhecedor de música e de cultura como poucos, me falou que achava bom o fato de o ano terminar sem ter cumprido todas as metas propostas no início, porque um ano novo que começa oferece essa possibilidade; aí ele falou sobre a oroborus, serpente que engole a própria cauda e é símbolo do ciclo de eterna renovação da vida. Na mesma hora pensei na fênix, pássaro mítico conhecido por seu renascimento das cinzas.

Assim, fiquei pensando no quanto nos é vital essa renovação, de iniciarmos novos ciclos finalizando e fechando outros. O Universo demonstra isso sabiamente todos os dias e noites. Ao mesmo tempo, é interessante observar como há um imaginário coletivo e talvez até arquetípico em que mitologia, religião, espiritualidade e culturas múltiplas se intermisturam e se alimentam de uma maneira fascinante.

Vejam que a oroborus pode ser encontrada em culturas diversas e distantes no tempo e espaço, mas sempre conservando um significado singular de representação do infinito, da imortalidade, da eternidade e do renascimento. Da mesma forma, o renascer é simbolizado pela fênix que, por conta desse conceito de negação da morte, teria sido adotada no início da tradição cristã como representação da ressurreição e da imortalidade. Encontrei, inclusive, várias referências que indicam similaridades entre o mito da fênix e a história do nascimento, morte e ressurreição do Cristo.

Com isso, quero voltar à idéia do quanto nos é vital o ciclo de renovação, a possibilidade de recomeçar, e o quanto isso nos constitui enquanto seres desejosos de podermos reconstruir, refazer, fazer diferente, recompor, enfim, o quanto nos é necessário sonhar, acreditar.

Fênix chinesa. Imagem extraída de sites.google.com
Vejo sem entusiasmo parte dos votos mais comuns entoados nessa época, devidamente inspirados no já tradicional "muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender", bastante apropriado ao senso prioritariamente materialista da nossa sociedade, mas sem brilho, na minha opinião, quando penso no sentido mais amplo e profundo das possibilidades do que pode renascer em um ano novo, do que pode ser transformado nesse ciclo vital de recomeço.

Assim, desejo saúde a todos nós, não para dar e vender, mas para que se possa viver bem, porque como dizem os antigos, o importante é ter saúde, porque "no resto a gente dá um jeito".

Aos que vivem no mundo adulto, desejo que possamos nos preocupar mais em como usufruir do nosso tempo ocioso do que com a falta de tempo para fazer coisas que gostaríamos.

A quem tem amigos, desejo que sejam felizes como eu sou, porque tenho amigos que amo e que retribuem meu amor. Desejo, assim, que possamos ter muitos e muitos momentos partilhados com amigos queridos, porque existem poucas coisas tão prazerosas quanto viver perto de amigos verdadeiros.

Por fim, desejo aos pais e mães como eu que possamos ter mais e mais momentos com nossos filhotes, muito mais do que eles têm para ficar no computador e/ou na televisão. Desejo, além disso, que saibamos cada vez mais equilibrar muito amor com os limites necessários para que eles cresçam sentindo-se seguros e independentes. Desejo, sobretudo, que tenhamos sabedoria para saber que, mais importante do que roupas e sapatos da moda, brinquedos e tralhas eletrônicas de última geração e afins, o que realmente faz uma criança feliz é carinho e atenção e ser feliz ainda é o que realmente importa na vida. 

Feliz 2011!
Jany



Sites consultados:

http://recantodasletras.uol.com.br
http://somostodosum.ig.com.br
http://www.coacyaba.com.br
http://lunarosa.multiply.com

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Escolhas profissionais e felicidade

Outro dia soube que um amigo abandonou o mestrado.

Ele não trancou a matrícula para continuar num outro momento, não pediu prorrogação de prazo nem mudou de área, o que fez foi desistir do curso definitivamente. Um curso, vale ressaltar, numa universidade pública, numa área concorrida e promissora profissionalmente.

Uma atitude certamente incompreensível, até mesmo inaceitável se considerarmos o mercado de trabalho, a necessidade de especialização profissional, o prestígio de um curso numa universidade renomada, dentre outros fatores que podem influenciar no sucesso da carreira e no exercício da profissão.

Claro que não são todos os cursos em uma universidade pública que garantem uma carreira promissora e se alguém decide abandonar um curso que oferece pouco retorno profissional e financeiro é até mais compreensível e aceitável.

Mas conseguir ingressar num mestrado nessas condições e jogar tudo para o alto no meio do caminho é quase uma heresia acadêmica e profissional.

Por outro lado, por que sempre é tão difícil compreender uma decisão que não esteja alinhada ao que parece ser “o melhor”? Afinal, existem parâmetros óbvios que podemos tomar como referência para uma decisão desse porte, não é mesmo?

No contexto das opções no universo acadêmico, por exemplo, pedir transferência de um curso como Arquitetura e ir para a Geografia ou sair do Direito e ir para História ou mesmo prestar Letras ou Ciências Sociais (Filosofia, então, nem se fala) ao invés de Administração ou Engenharia - ainda mais se a pessoa é considerada “inteligente“ e bem preparada para o vestibular - é algo igualmente incompreensível na maior parte dos casos e já vi muita peleja entre pais e filhos por causa desse tipo de decisão.

A questão é que o parâmetro para o que “é melhor” não tem como foco o que a pessoa quer, o que sente, o que gosta e o que a faz feliz. O que torna absurda uma atitude como a tomada por este meu amigo são as considerações feitas por essa sociedade racional e mercadológica, na qual o importante é você fazer algo em que esteja implícito o sucesso profissional e financeiro, independente se isso te faz feliz ou não.

Aliás, como pude me esquecer? Nessa sociedade é piegas falar em felicidade baseada numa referência mais interna e pessoal, afinal, se você é alguém de sucesso, que conseguiu “chegar lá”, com certeza será feliz, não é assim? Infeliz com certeza será aquele que se contenta com pouco, que tendo a oportunidade de fazer um curso de alto padrão e reconhecimento social opta por um daqueles cursos que já falei aqui, que formam profissionais pouco valorizados socialmente e no mercado de trabalho, leia-se, especialmente, professores.

Assim, não é incomum ouvir a história de um advogado frustrado que queria ter feito Música ou Artes Plásticas, de um engenheiro que queria ser historiador ou filósofo, de um jornalista que queria ser ator, porque ainda há jovens às pencas que entram na universidade influenciados - e até mesmo obrigados - não pelo que querem, mas pelo que seus pais acham que é melhor para eles, baseado nesse pressuposto de que se o cara quer fazer arte, teatro ou filosofia, depois vai viver do quê? Não, precisa fazer um curso que garanta seu futuro, então tem que ser Engenharia, Medicina, Administração. Não importa muito se o cara vai ficar frustrado em seus desejos, naquilo que quer e que o faz feliz, o importante é que tenha um “futuro profissional”.

Mas como eu já disse, ser feliz para quê, não é?, o importante é ser uma pessoa de sucesso, com um trabalho promissor, que garanta adquirir todos os bens de consumo que a sociedade impõe como necessários para que, aí sim, sejamos felizes. A felicidade, nesse contexto, não é fazer escolhas que estejam de acordo com o que queremos de verdade, com o que faz sentido ou nos completa, mas fazer escolhas que garantam retorno financeiro e um determinado padrão social.

Observe, no entanto, que é possível ser professor ou artista e viver disso profissionalmente. Talvez seja um pouco mais difícil porque no mundo capitalista não há tanta necessidade de arte nem de educação, então, para que valorizar profissionais dessas áreas? Mas, ainda assim, seguramente é possível viver dignamente tendo essa formação.

A questão é que ser feliz na sociedade contemporânea implica muito mais que viver dignamente, há um conjunto de supostas necessidades materiais que precisam ser supridas e que com um salário mais modesto às vezes fica complicado.

O fato é que, neste mundo contemporâneo, fazer escolhas que não estejam dentro dos padrões aceitáveis da organização racional-capitalista gera pressão social e faz com que esse tipo de atitude pareça absurda. Mas é absurdo abandonar o que não faz sentido e nem faz feliz? É absurdo largar algo que não foi exatamente escolha própria, voltar atrás quando percebemos que fomos enredados pelas escolhas dos outros, sejam nossos pais, seja a sociedade? É absurdo abandonar algo que nos disseram que era o melhor porque garantia sucesso, progressão profissional e financeira se, na verdade, não é isso que queremos realmente?

Em prol de quê há que se seguir um caminho assim? Para não desagradar aos pais? Porque eles acham que é o melhor caminho? Porque tivemos oportunidade em meio a tantas outras pessoas que tentaram e não conseguiram? Porque isso garantiria o sucesso profissional?

Bem, sempre é possível ir na contramão desse padrão de escolha e sentir-se muito feliz. Foi o que fez meu amigo ao abandonar seu mestrado na USP.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Aviso aos navegantes

Como diria um historiador nato, contextualizar é preciso.

Qualquer coisa que você perguntar a um sujeito com essa formação correndo nas veias, dificilmente terá como resposta algo objetivo, sem contextualização prévia. Eu diria que é quase impossível para alguém assim explicar algo sem situar muito bem os fatos, afinal, dessa forma, seu interlocutor compreenderá melhor o assunto tratado.

Você pergunta como é possível que no Congresso brasileiro haja tanta corrupção, esperando uma discussão que gire em torno da falta de participação política da maior parte dos brasileiros, de questões envolvendo a educação básica ou ainda alguma responsabilidade envolvendo a mídia, mas não, o cara vai muito mais longe e, assim, começa a te explicar que essa situação tem raízes na formação do Brasil desde a época da colonização pelos portugueses, disserta sobre o momento político em que o Brasil deixou de ser colônia e passou a ser "Império" e por aí vai, até chegar aos tempos atuais.

Calma, existe um mito que talvez seja comprovado um dia: nem todos os formados em História são prolixos ou viciados em contexto.

Quanto a mim, aviso aos navegantes deste blog sobre algumas coisas que sempre encontrarão por aqui, e um pouco dos porquês disso.

E veja, não se trata de justificativas, o objetivo é contextualizar você.

1. Filhos.
Sim, tenho dois, sou ultra-coruja, mas para além das corujices sou educadora e estudiosa da educação e mãe bem-sucedida. Então falarei muito por aqui de nossos filhotes e assuntos afins, como educação, dilemas pais e filhos, a dureza que é educar filhos bem-educados nesse mundo complexo e complicado e tudo o mais.

2. Classe média.
Sim, concordo que não existe apenas uma classe média, que existem infinitas nuances quando pensamos as classes médias e que, nesse e em outros sentidos, o termo burguês é extremamente limitado quando utilizado nos termos que normalmente são usados por pessoas consideradas antiquadas politicamente, mas como uma quadrada que sou, adoro utilizar esse termo, porque acho que ele fala por si, por assim dizer.

3. Questão racial.
Se você gastar seu tempo por aqui, é possível que pense em alguns momentos "por que essa branca se preocupa tanto com isso", mas sim, a questão racial é algo que discuto e reflito e denuncio o tempo inteiro, talvez porque eu não acredite, em certo sentido, que haja realmente brancos no Brasil, talvez porque me incomode a ideia de que alguém acredite (ainda) que há democracia racial no Brasil, talvez porque eu ache que alguém que pense algo similar ao que citei no início do parágrafo realmente precisa ser incomodado com assuntos sobre a questão racial.

4. Gênero.
Sim, para mim a questão de gênero está presente em tudo e acho que é muito importante perceber as sutilezas nas quais, o tempo todo, aparecem questões que mostram como o machismo e a violência estão incrustados nas relações.

5. OutrAs.
Além disso, como já me falaram muitas pessoas queridas, eu sempre tenho algo a pitacar sobre tudo. Então farei isso aqui, palpitarei sobre tudo, inclusive o que nem é de minha alçada, como sobre filmes, montagens, a internet, enfim, tudo o que gosto de ficar analisando, que me chama a atenção e que em minha opinião pode contribuir, de alguma forma, para o tempo de quem, como eu já disse, gastar um pouco de seu tempo por aqui.