domingo, 3 de outubro de 2010

Carro zero tem seta?

Bem, é possível que esse título seja injusto com aquelas pessoas bem educadas que dirigem carros mais novos no trânsito paulistano. Concordo que talvez seja uma interpretação polêmica, mas à luz de um discurso bastante disseminado por aí, no qual os chamados pobres é que são sem educação, acho aceitável ter maiores expectativas de boa educação quando as possibilidades de acesso a ela são maiores. E não dá para dizer que quem dirige um carrão é sem educação por falta de oportunidade ou de acesso.

Na verdade, não acredito que o problema seja somente falta de boa educação, daquela que ensina a respeitar o outro e não querer se dar bem a qualquer custo. O que me parece é que carros caros não andam sozinhos e, dessa forma, muitos dos que tem um desses possivelmente tem um tanto de outras coisas que os fazem se sentir mais e melhores que nós mortais. Talvez isso explique a falta de respeito com que muitos Hyundai, Corolla, Vectra, Audi, Honda Civic etc. andam por aí, ultrapassando e mudando de faixa perigosamente e enfiando seus potentes motores em qualquer espaço possível sem uma sinalização básica, obrigatória por sinal.

É bem verdade que um trânsito abarrotado como o de São Paulo está também abarrotado de motoristas folgados, mas tenho sempre a impressão de que quanto maior e mais novo o carro mais folgado é seu motorista. É possível, evidentemente, que eu esteja enganada e essa proporcionalidade só chame tanto minha atenção porque normalmente são carros que, por seu tamanho e belezura, chamam mesmo a atenção de qualquer pessoa.

O fato é que tenho pensado que há coisas que o trânsito provoca que me levam a crer que mesmo pessoas gentis, solidárias, generosas, muitas vezes até religiosas, altruístas e que querem o bem do próximo não estão livres de sentimentos e atitudes vergonhosas quando estão à frente de um volante no emaranhado de carros de uma metrópole como São Paulo.

Vejam, estou bem longe de ser alguém com tantas qualidades, mas observando certos sentimentos que tenho quando dirijo por São Paulo comecei a refletir sobre o porquê e o que representa chegarmos a esses sentimentos que em nada orgulhariam uma pessoa de bem. Vejamos algumas situações.

Em geral sou uma pessoa tranqüila, até simpatizante da convivência amistosa, mas quando no trânsito, freqüentemente sou envolvida na teia da famigerada competitividade. Mas não é intencional, o que ocorre são situações como quando você está vindo na faixa da esquerda, no limite de velocidade, aí vem aquele sujeito impaciente - que se estivesse na rodovia jogaria farol alto até você sair. Como na cidade não dá para fazer isso ele ultrapassa você pela direita acelerando de tal forma a deixar claro a impaciência dele, como se estivesse no direito de dar bronca em você. Bom, quando logo à frente eu vejo que ele ficou parado no farol, numa fila de carros ou atrás de um caminhão e minha faixa me permite seguir tranqüilamente, é bom que se diga, dentro do limite de velocidade, não resisto àquele risinho interno.

Há também aquela situação em que você está se aproximando de um farol fechado, não há nenhum carro à sua frente, mas de repente alguém sai de uma faixa e entra na sua frente, afinal, todo mundo pára o carro atrás da fila que está menor. O povo não sossega, é muito chato, e aí quando de repente a outra fila em que o sujeito estava antes de mudar anda mais rápido que a atual, novo risinho, afinal, quem mandou ficar mudando o tempo todo de faixa? Não faz tanta diferença.

O pior é quando você está numa ladeira bem íngreme esperando para cruzar uma rua de duas mãos e aí vem aquele infeliz com seu carro potente se achando o esperto e quer te ultrapassar pela direita passando pela sua frente. Acho quase impossível não sentir ódio de um sujeito que faz uma coisa dessas, assim como daqueles que não deixam você fazer um cruzamento sendo que vão parar logo em frente porque o farol está vermelho ou, o pior e mais insensível, quando o trânsito está parado e você está esperando para entrar na via e ninguém deixa. Ou seja, tanto em uma quanto em outra situação o sujeito vai ter que parar 1 metro adiante mas não pode parar um pouquinho antes para deixar você passar ou entrar na fila de carros. Isso que é solidariedade! Acho impossível não vibrar muita raiva a uma pessoa que tem uma atitude dessas.

Mas o que mais me envergonha é o sentimento gerado quando estou em uma curva acentuada próxima da minha casa, local que dificulta muito a visão e no qual há um ponto de ônibus. Os ônibus não são abundantes na periferia mas, às vezes, acontece de haver um na sua frente, e aí surge aquele indivíduo que decide ultrapassar todo mundo invadindo a outra faixa totalmente sem visão por estar numa curva. Nessa hora não consigo não pensar “ah, se ele desse de cara com um carro”. Não, eu não gostaria que o cara batesse, até porque ia prejudicar alguém teoricamente inocente, mas que seria uma lição se ele tivesse que voltar para a faixa correta com o rabinho entre as pernas, ah, sim, isso tenho que admitir que passa pela minha cabeça de motorista patológica.

Por causa dessas e outras paranóias e chatices minhas sou freqüentemente associada pelos meus àquele personagem do Pateta, Sr. Walker, homem comum de hábitos estranhos e peculiares; na verdade, um senhor de bem que quando está ao volante muda completamente sua personalidade. É possível que eu não seja mesmo um exemplo de paciência e tolerância no trânsito, embora ache que há uma grande diferença entre fazer coisas desrespeitosas e não ter paciência com quem as faz. Mas tenho me esforçado e essa reflexão parte desse esforço, afinal, penso que se deixar influenciar por essa energia tão competitiva, intolerante e pouco educada que circula no trânsito de São Paulo não há de fazer bem a ninguém, nem a pessoas constituídas de acidez, pouco açúcar e muito sal como eu.
 
http://www.youtube.com/watch?v=cfnrHz_gM20

6 comentários:

Juliana Caldeira Monzani disse...

Hany, concordo com você. No meu entender nossa mentalidade de colonos (porque ainda reproduzimos a sociedade colonial de escravos e senhores de escravos), nossa elite medíocre precisa desesperadamente se autoafirmar e negar sua condição subalterna de elite dentre miseráveis. Problema de autoestima. O carro é, evidentemente, o meio mais óbvio de mostrar dinheiro e poder e (na cabeça paranóica dessas pessoas) de de diferenciar da massa de "escravos" que são condenados a utilizar transporte público, ou (infeliz época do carro popular) podem se endividar para adquirir em 36 vezes um carro mais barato e portanto menos potente (e portanto sem os mesmos direitos da elite). :)

Jany Canela disse...

Pois é, Jubs, observação interessante, e eu diria mais, como Tíbio e Perônio, para grande parte da elite brasileira continua sendo vergonhoso identificar-se com nossa identidade indígena e negra, afinal, os europeus é que são educados, bonitos, um modelo exemplar de sociedade e civilidade.

O que é chocante nisso é aquela história de essa elite ir para a Europa e achar lindo o quanto lá o trânsito é civilizado e as pessoas são educadas e quando estão aqui no Brasil não raro estacionam sobre a faixa de pedestres ou não páram seus carrões mesmo quando o pedestre está no meio da faixa.

Mas é como você disse, problema de autoestima de gente q se acha superior e, portanto, não precisa demonstrar sua suposta educação para nós, da massa.

Rafa Araújo disse...

Excelente o vídeo do Pateta! Representa bem o caráter tipicamente paulistano, seja ele dono de um "carrão" importado, ou de um singelo carro popular. A dupla personalidade, representada na animação pelo polido Sr. Walker, que locomove-se pelas ruas como um mero e gentil pedestre, e pelo Sr. Wheeler, que domina as avenidas com seu carro com terrível impaciência e má educação, faz parte de um comportamento patológico muito frequente dentre os cidadãos que vivem nas grandes cidades brasileiras, principalmente em São Paulo.
Nestas horas me questiono sobre a natureza da boa educação das pessoas e sobre os motivos da mudança gradativa desta preciosa qualidade. Será que existem mesmo pessoas educadas, gentis e doces em suas vidas cotidianas, que se tornam agressivas no trânsito, como bem exemplifica o desenho? O que acontece com o humor dos polidos e generosos, que contamina-se facilmente quando os mesmos adentram seus carros e seguraram os seus volantes? Seria a competição do mundo moderno, a correria implacável do dia-a-dia, a pressa e impaciência, o estress, o excesso de problemas urbanos da cidade, o descaso dos governantes com a qualidade das ruas e da cidade, as más atitudes dos outros motoristas, e mais, a perda de controle de nossas próprias atitudes solidárias?
Por que nós, pessoas educadas com os outros, deixamos que todos estes problemas do trânsito prejudiquem nossas atitudes de boa convivência? Por que nestas horas perdemos (momentaneamente?) o amor e a compreensão para com o próximo? Por que os preciosos ensinamentos que recebemos da família, e aqueles que aprendemos durante a vida, perdem-se completamente quando começamos a dirigir um veículo e a lidar com todas as adversidades mencionadas? Por que não podemos colocar em prática a boa educação não somente em casa, na escola e no trabalho, como também no trânsito, e neste caso em particular, ao dirigir um carro?
Que patologia é esta, que parece não ter cura? Fica aqui minha indagação e reflexão.

Diógenes disse...

Olha só, consegui achar aquele link sobre paixão por carros no universo do futebol:
http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2010/10/08/paixao-por-carros-revela-ciumes-entre-jogadores-extravagancia-e-loucuras-financeiras.jhtm

bjs
Dió

Jany Canela disse...

Rafa, fico contente q tenha gostado do vídeo do Pateta, é um clássico q mostra q tem cetas coisas q nunca mudam e, infelizmente, parece q tendem a piorar.

Dio, estou achando q esse vídeo q você enviou talvez mereça um outro texto... :)

beijos

Renan disse...

É assim mesmo que ela faz no trânsito, eu vejo todo dia!

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