segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Por que traição dói tanto?

Estava às voltas com um texto que pretendo escrever sobre o estudante morto no campus da USP semana passada quando fui atingida por uma história recente de traição. A questão me incomodou de tal forma e me deixou tão impactada que não pude conter meu desejo de passar para a escrita, imediatamente, algumas linhas sobre isso. Como muita coisa nesse blog sai fora de hora mesmo, seguramente ainda volto a minha reflexão sobre a morte do estudante Samuel de Souza.

Cena do filme Edukators, Alemanha, 2004.
Pois bem, como eu dizia, uma história recente de traição me fez pensar um pouco sobre o porquê sofremos tanto quando nos deparamos, muitas vezes não sem surpresa, com a traição de alguém que amamos.

Seria devido à forma como nos relacionamos, ou seja, dentro da tão clássica relação de exclusividade, que quando quebrada nos traz esse sentimento de que fomos traídos? Seria a sensação de que a outra pessoa é melhor que nós, essa sensação vergonhosa de baixa estima? Seria orgulho ferido, por nos sentirmos insuficientes em tudo o que pretendemos contemplar na satisfação pessoal, amorosa e sexual da pessoa com quem estamos? Seria a sensação besta de que perdemos o jogo para alguém?

Realmente não sei, talvez não seja nada disso, sejam outras coisas ou seja um pouco de tudo isso ao mesmo tempo, mas o fato é que tanto homens quanto mulheres ficamos atordoados com uma traição, independente de como consigamos lidar com a dor que isso causa, o fato é que traição causa dor.

O que me impressiona ao pensar nessa questão é como realmente somos complicados porque me parece que, após milhares de anos nos relacionando amorosamente, ainda não conseguimos abrir mão de certos padrões que sabemos não funcionar muito bem. É assim que insistimos, por exemplo, nos pactos de exclusividade eternos, como se fosse possível prever para todo o sempre que jamais nos interessaremos por outras pessoas ao longo de nossas vidas, tão pouco intensas no mundo contemporâneo, não é mesmo?

Vejam, não quero parecer leviana, como se fosse impossível dedicar amor e fidelidade a apenas uma pessoa, mas falo da insanidade existente em muitos relacionamentos amorosos, nos quais a título dessa pretensa exclusividade e fidelidade tenta-se controlar não apenas os atos e a liberdade do outro como também as amizades que pode (ou não) ter, o estilo de vida, em suma, grande parte de suas escolhas, num total desrespeito à privacidade e à individualidade, elementos centrais de nossa dignidade enquanto sujeitos. O mais triste é que, segundo uma grande terapeuta que conheço, esse tipo de descontrole emocional em um relacionamento é bem mais comum do que se imagina para uma sociedade tão democrática, moderna e civilizada quanto a nossa.

Mas suponhamos que o relacionamento seja saudável, que os dois indivíduos envolvidos se respeitam enquanto sujeitos em sua individualidade e liberdade, que escolheram conscientemente estar juntos (sim, porque há pessoas que parecem estar obrigadas a ficar com alguém, como se isso garantisse a felicidade dos filhos, o término das contas e das dívidas ou os bens materiais fossem razão suficiente para abrir mão da própria felicidade) - e que, na consciência dessa escolha e da implicação do que chamo de pacto de exclusividade, entendem que se amam.

Talvez minha impactação com a história que eu soube advenha exatamente do fato de que nada disso garante que a traição não aconteça e, talvez também por isso, a dor e o atordoamento sejam tamanhos. Porque, no fundo, ninguém está preparado para sentir-se enganado, que é basicamente o sentimento gerado por uma traição quando estamos numa relação como a que acabei de citar.

E, nesse sentido, creio que a relação entre traição e sentimento de ter sido enganado pode ser transposta para a maior parte dos relacionamentos, seja de amor, de amizade, fraternal entre pais e filhos, irmãos etc. Ninguém gosta de ser enganado, é ruim sentir, ainda não sendo a verdade, que talvez não sejamos tão importantes quanto gostaríamos para alguém e, ainda que dificilmente seja essa a razão principal de uma traição, é impossível para um espírito magoado compreender o que leva alguém que se ama a cometer um ato de enganação.

Cena do filme Edukators, Alemanha, 2004.
A solução seria o diálogo franco e aberto? Dizer ao outro, no caso de seu amor, que se está interessado numa terceira pessoa, ou que se fará uma escolha não muito aceita para o padrão de educação recebida, no caso dos pais, e assim por diante? A verdade é que, na maior parte dos casos, esse caminho também parece pouco viável. Fico pensando se quando decidi viver minha vida sexual livremente tivesse comunicado aos meus pais o quanto isso talvez tivesse chocado mais do que quando fiquei grávida e optei por não me casar. 

Da mesma forma, vejo o quão difícil e trabalhoso é construir um relacionamento aberto e já presenciei casais genuinamente poliamorísticos com crises por causa de uma terceira pessoa que entrou no relacionamento provocando o sentimento de traição.

De fato, parece muito complicado equacionar amor e liberdade quando penso o quanto de possessividade, insegurança e egoísmo nos constituem enquanto seres humanos complexos e incoerentes na nossa forma de amar e manifestar o amor.

Cena do filme Edukators, Alemanha, 2004.
Se você já leu outros textos deste blog talvez tenha reparado que sempre tento finalizar minhas reflexões com um tipo de 'fechamento'. Pensei bastante e não consegui encontrar nada que fechasse de maneira satisfatória as questões que me trouxeram a esse texto. Talvez seja porque a experiência da dor de uma traição é algo tão particular quanto as possíveis razões que, em nossa dor, podemos especular tentando compreender essa traição. Confesso que jamais consegui compreender bem as traições que sofri ou as que cometi, mas sei que a dor, tanto provocada quanto sentida, só se esvaiu quando foi possível (re)colocar em seu lugar sentimentos de respeito e de amizade.

9 comentários:

Rafa Araújo disse...

P.S.: Por que fotos do filme "Edukators" ilustram esta belíssima postagem?

Rafa Araújo disse...

A dor de uma traição, uma das piores sensações que uma pessoa pode sentir. Em meu primeiro namoro, aos 18 anos, à flor da idade, fui traído uma vez. Perdoei, voltamos a namorar. Fui traído mais duas vezes, com homem e mulher!
Em minha experiência pessoal com a infidelidade, endureci meu coração por longos e longos anos no temor de confiar novamente e me envolver emocionalmente com as pessoas.
Hoje, após experienciar alguns (ou vários) compromissos, rompimentos, pactos de verdade, enganações, aventuras, decepções, juras eternas de amor, inseguranças, obsessões e ódios, aprendi a valorizar a sinceridade, a confiança e a lealdade. Cresci, evoluí um pouco, me conheci melhor. Sei agora que o importante é me amar em primeiro lugar, mais que a qualquer um! E posso dizer com orgulho que meu coração engrandeceu ao aprender a amar o próximo sabendo deixá-lo sentir-se livre. E isso não significa abrir as portas para que o outro possa trair! Não. Significa ter maturidade, desprendimento, compreensão, aceitação, cumplicidade, amor-próprio. Não me agrada a ideia de que a possessividade e um "ciuminho básico" são temperos do amor... Pessoas que dizem isso - e muitas o fazem - não conhecem o amor verdadeiro. Talvez conhecem a paixão, fogo que passa rápido, tão distante do que realmente é o amor!
Em minha opinião pessoal, amor entre duas almas que se atraem é algo tão mais profundo e sublime, tão elevado, e que exige tanto tempo de troca e convivência, que atitudes pequenas como ciúme, mentira e traição não combinam com tão magnífica forma de expressão humana.
Feliz daquele que sabe amar e se deixa amar.

Rafa Araújo disse...

3003 visitantes no blog!

uhuuuuuul

parabéns... xD

Jany Canela disse...

Rafa, obrigada por partilhar essa bonita reflexão a partir de sua vivência pessoal =)

Sobre 'Edukators', você sabe q não gosto de dar spoiler, então vou falar só do ponto de vista conceitual, por assim dizer ;)

Pensei no filme porque acho q ele retrata o quanto às vezes é difícil conciliar os ideiais q temos com a influência q temos da nossa educação, dos valores sociais, enfim, na forma de viver e manifestar o amor.

Acho q o filme retrata bem isso, o conflito entre um ideal libertário de sociedade (e de relação com o outro) e como isso pode ser complicado no plano pessoal quando se sofre o q sentimos como traição. O interessante é como os 'Edukators' resolvem a questão dessa influência dos valores da sociedade burguesa nos relacionamentos e a importância q a amizade tem no fechamento do filme.

Jany Canela disse...

3010 já! E 'vamo que vamo' ;)

Dionísio disse...

Eu ja fui traído e já me vi na situação de trair, em ambos os casos, pra mim, aquilo representava uma falta de verdade no que eu sentia.

No primeiro caso eu terminei no ato, no segundo, já estávamos tão distantes que em menos de uma semana do fato ele terminou comigo sem saber.

No fim das contas, você não trai outra pessoa, na minha opinião, mas sim o sentimento que tem por ela, e que normalmente já está abalado quando a traição se torna uma possibilidade.

Tio Keb disse...

Cheguei!!! Jany, amor, seu blog tá siniSHtru como dizem nas terras de cá.
Adorei esse sua reflexão. Você apresenta questões interessantes, dificilmente consideradas nas falas e reações clichês a que estamos condicionados.
Não pude deixar de me lembrar daquela fábula zenbudista do escorpião e do sapo (quem não conhece, é só perguntar pro Oráculo Google). Sapo e escorpião buscavam o melhor, o "bem" (no entendimento dos dois, claro). O escorpião acabou ferroando o sapo porque era da natureza do artrópode ferroar qualquer um que encostasse nele. Um acordo racional bem intencionado entre os dois jamais poderia mudar isso, mudar o que estava previamente estabelecido por Deus, selado pelo Universo.
Fico pensando nesses acordos pseudoamorosos alicerçados em valores culturais retrógrados e milenares que ditam a um bicho que por natureza é livre, poligâmico e capaz de relacionar-se poliamoristicamente, que seja monogâmico. O pior é que esse engano coletivo é muito mais poderoso que nossa racionalidade. Pelo menos é muito mais que a minha.
Muitos mestres espirituais ensinaram que para a paz no planeta ser alcançada é mister que todos os seres humanos alcancem a paz interior. Gandhi defendia que para isso, entre outras coisas, é de extrema importância que cada pessoa desenvolva plenamente o estado de inofendibilidade. Ele dizia que a responsabilidade por alguém se sentir ofendido, magoado, enganado é exclusiva desse alguém. Isso porque, defende o Mahatma, o que o outro fez (independente do que seja) só deixou essa pessoa num estado emocional lamentável porque ecoou dentro dela devido às suas crenças, valores, frustrações, carências, apegos e outras maluquices. Extremos
à parte, é o enganado, ofendido ou magoado que precisa ralar pra tornar-se um ser que não se ofende, inofendível, que percebe somente Deus no mundo, o Amor (aqui, o verdadeiro, o cósmico).
Parece que uma das formas de se atingir esse estado de consciência proclamado pelo doce mestre é adotar uma série de hábitos austeros. Os ascetas, por exemplo, costumavam buscar a paz interior e o estado de inofendibilidade rezando e meditando umas 15 horas por dia, jejuando vários dias no mês, alimentando-se somente de pão, grãos e frutas, não ingerindo nenhuma bebida que não fosse água, mendigando, dormindo em locais bastante desconfortáveis, tomando banho gelado, e abstendo-se totalmente de beijar na boca e de fazer sexo por toda a vida.
Por certo há outros caminhos para se chegar à paz interior e ao tal estado da inofendibilidade que não esse tortuoso e espinhoso (preferido entre muitas tradições espiritualistas). De qualquer forma, negar a própria natureza, o que só pode gerar dor e desconforto, parece ser um hábito em diversas culturas humanas.
Antinatural por antinatural, sou mais a crença e a insistência na fidelidade conjugal. Pelo menos há momentos divertidos e prazerosos no meio da palhaçada toda. No mais, uma ferroadinha nas costas nem dói tanto assim.

Jany Canela disse...

Keb, querido, é um prazer ter [mais] alguém tão prolixo quanto eu mesma neste bem quisto Blog.

Sua reflexão, a meu ver, vai muito além do que consegui desenvolver no texto: você trouxe questões mais profundas e fiquei até com vontade de desenvolver algumas coisas que pensei em um novo post, mas não vou prometer isso, estou já com dívidas de escrita por demais.

Mas adianto o q mais me chamou atenção, a história da inofendibilidade, pq penso q se aplica a quase tudo q vivemos cotidianamente, especialmente em meio às dificuldades de tolerância e compreensão surgidas no dia-a-dia dos espaços urbanos, só para dar um exemplo.

Outra questão q me cutuca sempre é essa q relaciona tradicionalmente amor, casamento e monogamia. Tenho pensado muito sobre isso à luz um tanto de alguns pontos q vc tocou e outro tanto de questões minhas mesmo, essas sim, com a promessa de desenvolver melhor aqui no Blog.

Por ora, fico com o prazer de receber [e responder] mais um querido leitor para enriquecer o Pouco Açúcar.

Seja bem-vindo!!!

Beijos enormes e com muita saudade

Anônimo disse...

Deixo aqui um ponto... hormonas, conforme o nosso estado hormonal o nosso cerebro tem mais desejo ou menos, tem mais vontade de estar com outro alguem ou não... existem da mesma forma seres "mais assexuados" que outros, e para esses é muito dificil compreender o porquê do outro trair numa coisa tão básica. Eu sou muito apologista da mentalidade swinger, dár asas ás fantasias perto do outro, se o fizer longe é traição (mesmo que seja a pessoa que esteve no outro dia). De resto todo o ser pode sempre optar por ser livre ou encontrar alguem que compartilhe desde inicio ideais. Nao acredito sinceramente que quando se tenha aquele sentimento de amar que se ponha de parte o sentimento de posse... também acredito que dois seres possam estar juntos apenas pela convivencia e por gostarem um do outro (amisade, irmandade) e sigo uma vida condimentada como casal... ou seja não sentem solidão e vivem "em extremo" felizes. A mim pessoalmente a traição confunde-me em dois sentidos : Doenças (pouca preocupação deve existir nesse sentido) e a pessoa que trai não ser capaz de admitir á outra os seus desejos ou as suas faltas...lembrem-se sempre conforme o nosso estado hormonal o nosso cerebro processa de maneiras completamente diferentes, por isso quando somos nós a trair custa menos (a libido do momento) do que quando traidos. Cumprimentos

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