segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Consumismo e outros "ismos", espírito de natal e sociedade contemporânea

Imagem extraída de socialismoclassemedia.tumblr.com
Hã, deixa eu adivinhar, você começou a leitura desse texto influenciado por essa imagem um tanto quanto inadequada ao espírito natalino, certo? Pois bem, achei o subtexto aí contido  bastante oportuno como provocação para o que pretendo desenvolver neste texto.

Na verdade, acho que não é mais novidade e chega mesmo a ser senso comum a discussão sobre o fato de que a data rendeu-se há tempos ao afã do consumismo característico da nossa sociedade exacerbadamente capitalista ou, como diriam alguns revoltados da década de 80, do capitalismo selvagem. Bom, quem me conhece sabe que não faço muito bem as vezes da hipocrisia então não vou polemizar sobre o Natal como se em minha vida nada acontecesse de acordo com alguns dos rituais desse evento cristão consagrado supremo nessa época do ano. Como a maioria das famílias brasileiras com formação católico-cristã, ao estar com meus familiares no final de ano, compartilho da clássica ceia de natal, abraço todos retribuindo o Feliz Natal e só não há troca de presentes porque, além de a família ser muito grande, ainda consigo manter meu desprendimento e não comprar presentes, ainda que a contragosto dos meus, sempre inconformados com meu radicalismo pouco adequado para esta época festiva.

Apesar desse comportamento chatinho em relação à compra de presentes, faço papel de boa menina no restante do cerimonial, mas vou segredar para vocês algumas coisinhas que me incomodam.

A primeira delas é essa abordagem do Natal como se todas as pessoas comungassem da mesma crença. Talvez seja ingenuidade de minha parte, mas assim como não somos todos heterossexuais ou brancos também não somos todos cristãos e ainda que o mundo ocidental seja, em teoria, majoritariamente cristão, acho muito estranho que uma sociedade que se pensa civilizada não tenha estratégias que permitam emergir a pluralidade de nossas crenças.

A seguir, me incomoda muito observar o quanto o chamado espírito de natal, que em gênese seria uma referência ao amor e à fraternidade, aparentemente se perdeu em meio às compras em shoppings e ruas lotados de consumidores frenéticos na busca por objetos que imaginam capazes de preencher seus corações e os corações de quem amam com esse ideal de sentimento abstrato de que todos falam e pensam partilhar nessa época.

O intrigante é que não me parece que as pessoas se entristeçam verdadeiramente com cenas que, imagino em minha já conhecida ingenuidade, deveriam entristecer pessoas imbuídas do espírito natalino, afinal, o nascimento do Senhor deveria trazer esse olhar para os que já perderam a esperança e a fé, não é assim?

Mas queiram perdoar a minha falta de compreensão. Talvez eu devesse ser mais razoável porque com tanta correria no final de ano, tantos compromissos e a superlotação cada vez maior de lojas, dificultando a compra dos presentes de Natal,  realmente fica difícil se atentar (quanto mais se entristecer com isso!, vejam a minha falta de bom senso) à grande quantidade de pedintes, crianças inclusive, ou ao aumento visível de pessoas vendendo ou mendigando nos faróis, idosos muitos, a quem parece que a aposentadoria e a família não chegaram após anos de trabalho a fio.

Ora, é muito provável que essas cenas e situações já estejam tão incorporadas ao nosso cotidiano de pessoas que vivem numa grande metrópole que tenhamos chegado à cômoda conclusão de que não podemos mesmo fazer nada, afinal, trata-se de um problema de ordem social muito maior do que pode dar conta a nossa humilde alçada.

De fato, concordo que o número de pessoas que hoje vive nas ruas e das ruas é muito maior do que um sujeito cristão médio empolgado com o Natal poderia prestar atenção em meio ao cotidiano espremido do final de ano e talvez essa nem seja a principal questão séria a ser trazida à baila. Mas
Imagem extraída de http://www.obrainstormer.blogspot.com/
considero que é um bom exemplo, dentre muitos outros, que poderiam ser tratados em um texto como esse, desgostoso e ácido demais para o atual momento de doçura natalina.

Vejam, também não estou remoendo assunto tão batido só para ser estraga-prazeres da alegria dos que sentem dentro de si um diferencial por estarem vivenciando genuinamente o espírito natalino. Contudo, quando nessa época ouço todos os dias apelos comerciais que incitam o consumo pelo consumo ou que relacionam* diretamente o consumo ao bem-estar e à felicidade fico pensando que não é de todo inútil essa reflexão às voltas com nossa imersão nesse confuso misto de individualismo, materialismo, consumismo e suposto amor fraterno que compõem atualmente o espírito natalino.


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*Por exemplo, “Shopping Vila Olímpia, tudo que te faz bem” ou “Pão de Açúcar, lugar de gente feliz”.

3 comentários:

Carlos Bessa disse...

Uma grande amiga minha sapatão assumidíssima diria que esta foto não é objeto de desejo de consumo só de homens de jeito nenhum!!!

Jany Canela disse...

Nem eu disse isso, meu caro :p

E para além do q eu poderia contestar em relação a esse termo "sapatão" de q você se utilizou, vou focar dizendo q a questão aqui é muito mais a relação entre consumo e espírito de natal do que consumo e gênero ;)

Renan disse...

Happy Hanukkah!

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